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Em expansão global, soluções baseadas na natureza ficam de fora de nova lei do saneamento

Tratamento em wetlands, em Araruama, é o primeiro grande exemplo brasileiro de solução baseada da natureza. Divulgação/ Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon).

*Esta foi a primeira reportagem publicada graças à campanha de financiamento coletivo do ((o))eco.

Adiada para 2021 por conta da pandemia do novo coronavírus, a 15ª Conferência das Partes para Biodiversidade da ONU, sediada em Kunming, na China, deixará ao mundo uma mensagem: as “soluções baseadas na natureza” são o grande trunfo para enfrentar a emergência climática. Usadas há décadas na Europa e coqueluche na Ásia, tecnologias que mimetizam processos naturais para o tratamento de águas de abastecimento, de esgotamento sanitário e pluviais ficaram de fora no novo marco legal do saneamento do Brasil, aprovado no Senado na última quarta-feira (24 de junho). Enquanto o mundo caminha para processos mais baratos e eficientes – e que fogem da lógica da engenharia cinza –, a aposta por aqui tem as digitais da rigidez do concreto moldado para domar a natureza.

Especialistas ouvidos por ((o))eco lamentam a ausência de referências no texto às tecnologias verdes, que poderiam fazer um importante contraponto à lógica dominante. E não é algo novo, nem inédito: desde 2005 há planta de tratamento de esgotos sem uso de produtos químicos em Saquarema, na Região dos Lagos. Órgãos ambientais brasileiros também já estão preparados para analisar as soluções baseadas na natureza.

“Falta uma visão multidisciplinar. No caso da captação de Guandu, no Rio de Janeiro, por exemplo, ao invés de focarmos na qualidade do manancial, para que ele produza água bruta de boa qualidade, se discute fazer um by-pass naquela poluição. Isso é empurrar o problema para frente. Essa é a prática do Brasil todo. Só que há melhores soluções”, comenta Lilian Hengleng, diretora-geral da Phytorestore do Brasil, especializada na restauração da biodiversidade de grandes áreas com crises ecológica.

A estação do bairro Ponte dos Leites, em Araruama, com base em wetlands (plantas aquáticas fazem todo o trabalho de produtos químicos), trata hoje 200 litros de esgoto por segundo de esgotos. A poda das plantas precisa ser realizada manualmente, já que não é possível colocar uma máquina para realizar o serviço. Troca-se, assim, a energia e o uso de produtos químicos por mão de obra. Com uma outra enorme vantagem: ausência de lodo, um enorme passivo ambiental, que tira a dor de cabeça dos operadores de plantas de tratamento de esgotos. O sistema é operado pela concessionária Águas de Juturnaíba.

“A estação não precisa de rede extensa, elevatórias (esgoto segue por gravidade), e evita as perdas, que chegam a 40% ao longo do percurso”, comenta Cecília Herzog, presidente do Inverde, Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana, e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Na China, lago que secou virou case de sucesso

Se passou ao largo da nova legislação brasileira, o glossário que reúne termos como fitorremediação, biorretenção, biorremediação de lodos, sedimentos e outros contaminantes, vem sendo amplamente usado na China. De 2014 para 2017, o Lago Wolong, distrito de Kangping, província de Liaoning, no nordeste da China, viu seus 68 quilômetros quadrados de espelho d’água abrigarem criações orgânicas de peixes, convertendo um cenário de degradação e desolação – suas águas chegaram a secar em 2004 – num ambiente pujante e sustentável.

Jardins filtrantes exercem o papel de coração do sistema, ao garantirem as condições necessárias para o negócio se manter em pé. Foram construídos diques, deques de observação de aves e habitat especiais para espécies, num investimento de 18 milhões de euros (cerca de R$ 110 milhões) proveniente de parceria público-privada.

Na avaliação de Lilian Henrleng, da Phytorestore, a falta de avanços no Brasil deve-se à falta de conhecimento técnico. Mas, a despeito da miopia dos legisladores de Brasília, ela enxerga alguns atores mais interessados em mudar o jogo. Dá perfeitamente para reinventar cidades, mesmo as mais impermeabilizadas, com infraestruturas verdes, assegura.

“Se você pegar todos os projetos de grandes rios hoje de países desenvolvidos o foco é a renaturalização. No Brasil, governantes e tomadores de serviços do saneamento ainda não aprenderam as soluções baseadas na natureza”, diz ela. “A subprefeitura da Sé, de São Paulo, acabou de fazer o maior jardim de chuva das Américas. Absorve 5% da água que iria ao piscinão do Pacaembu. Simplesmente se adequando ao paisagismo da cidade, quebrando asfalto. O desafio é avançar com respeito aos limites dos ecossistemas. Hoje consumimos 1,7 planeta em recursos naturais. É uma conta que não fecha”.

 

 

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O post “Em expansão global, soluções baseadas na natureza ficam de fora de nova lei do saneamento” foi publicado em 30th junho 2020 e pode ser visto originalmente diretamente na fonte ((o))eco

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